terça-feira, 23 de novembro de 2021

 
Saiba quem é o traficante Peixão, chefe do Complexo
 de Israel que mistura assistencialismo com violência

Filho de umbandista, hoje prega a intolerância religiosa nas 5 favelas na Zona Norte sob seu domínio. Alvinho, como era chamado, perdeu irmãos para o tráfico e viu tombarem vários chefões até assumir, com proteção de policiais corruptos e sem nunca ter passado um dia preso

Fonte: G1 

Por Luis Zamorano

28/10/2021



Estrela de Davi iluminada sobre a caixa d'água do complexo
Imagem: Rede Globo

Em meados de 2016, Alvinho estava obcecado com uma ideia: “Libertar o povo da Alta”, como é chamada a comunidade da Cidade Alta. Durante meses, só pensava num jeito de tomar o controle daquele conjunto habitacional em Cordovil, Zona Norte do Rio, vizinho a Parada de Lucas, favela que o traficante já controlava com uma receita básica: assistencialismo e mão de ferro.

Alvinho é o apelido de infância de Álvaro Malaquias Santa Rosa, de 34 anos, hoje conhecido como Peixão, o idealizador e chefe do Complexo de Israel, um conjunto de favelas na Zona Norte do Rio ocupado pela Polícia Militar na última segunda-feira (25) por "tempo indeterminado".

Há pouco mais de seis anos, é Peixão quem dá as cartas na região. Naquele ano de 2016, ele deixou passar as Olimpíadas do Rio, para não chamar a atenção da polícia, e invadiu a Cidade Alta.

Aos poucos, foi expandindo seus domínios para as favelas vizinhas como Pica-Pau e, mais recentemente, a Cinco Bocas, formando com Parada de Lucas e Vigário Geral o Complexo de Israel. "Ele tem um perfil expansionista, é um conquistador de territórios", afirmou o delegado Marcus Amim, da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE).

Peixão – ou melhor, Alvinho – foi criado pela mãe, umbandista, que recebia santo (o Erê) vestida de branco, comia pipoca e doces de criança na esquina da Avenida Brasil. Hoje adota e prega um discurso de “povo escolhido”. Mandou colocar a Estrela de Davi no topo da Cidade Alta e desenhou as bandeiras de Israel por toda parte. Seu bando passou a ser chamado de Tropa do Aarão.

influência evangélica fez também com que as favelas fossem desenhadas com passagens bíblicas. Na esteira disso, veio a intolerância religiosa. Terreiros foram proibidos e imagens de santa retiradas (veja na imagem acima).

O traficante já foi investigado por ordenar ataques a terreiros de religiões de matriz africana, através da atuação do Bonde de Jesus em Duque de Caxias, onde nasceu. Ele mesmo pregava em uma igreja evangélica no município.

Foi num bar da família, na beirada da favela, que ele cresceu. De pequeno, pegou o hábito curioso que mantém: o de sempre colocar azeitona em tudo que come. Perdeu dois irmãos para o crime – ambos acabaram mortos. A irmã também se envolveu. E outro irmão, Aldo, que ainda está vivo, perdeu uma perna – contra ele, há mandado de prisão.


Bandeira de Israel hasteada na comunidade
Imagem: Twitter

Na infância, dizia que não queria ser bandido. Mas se envolveu cedo. A escola pública, em Irajá, ele abandonou ainda na sétima série. Passou a andar com os meninos do fundo da favela que já faziam favores aos traficantes. Um deles cometeu suicídio recentemente, após anos de depressão e já afastado do tráfico. Essa transição na adolescência aconteceu no tempo em que Parada de Lucas era comandada por José Roberto da Silva Filho, o Robertinho de Lucas. Ícone do "assistencialismo bandido", deixou uma marca não só na favela que controlou, mas na própria facção Terceiro Comando Puro (TCP).

Robertinho evitava confrontos com a polícia a todo custo. Pagava propinas para não ser incomodado e fazia benfeitorias sempre tentando angariar a simpatia de moradores. Fez escola assim.

Peixão não tem registro oficial de prisão nos arquivos da polícia. Sua primeira anotação criminal foi em 2015, num relatório que já o tratava como novo chefão de Parada de Lucas. Hoje são 50 registros em sua folha, com 20 mandados de prisão por crimes como tráfico, homicídio, tortura, assaltos e ocultação de cadáver. 


Cartaz de procurado de Peixão.


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