Saiba quem
é o traficante Peixão, chefe do Complexo
de Israel que mistura assistencialismo
com violência
Filho de umbandista, hoje prega a intolerância religiosa nas 5 favelas na Zona Norte sob seu domínio. Alvinho, como era chamado, perdeu irmãos para o tráfico e viu tombarem vários chefões até assumir, com proteção de policiais corruptos e sem nunca ter passado um dia preso
Por Luis Zamorano
28/10/2021
Imagem: Rede Globo
Em meados de 2016,
Alvinho estava obcecado com uma ideia: “Libertar o povo da Alta”, como é
chamada a comunidade da Cidade Alta. Durante meses, só pensava num
jeito de tomar o controle daquele conjunto habitacional em Cordovil,
Zona Norte do Rio, vizinho a Parada de Lucas, favela que o
traficante já controlava com uma receita básica: assistencialismo e mão de
ferro.
Alvinho é
o apelido de infância de Álvaro Malaquias Santa Rosa, de 34 anos,
hoje conhecido como Peixão, o idealizador e chefe do Complexo
de Israel, um conjunto de favelas na Zona Norte do Rio ocupado pela
Polícia Militar na última segunda-feira (25) por "tempo
indeterminado".
Há pouco mais de seis
anos, é Peixão quem dá as cartas na região. Naquele ano de 2016, ele deixou
passar as Olimpíadas do Rio, para não chamar a atenção da polícia, e
invadiu a Cidade Alta.
Aos poucos, foi
expandindo seus domínios para as favelas vizinhas como Pica-Pau e,
mais recentemente, a Cinco Bocas, formando com Parada de Lucas e
Vigário Geral o Complexo de Israel. "Ele tem um perfil expansionista, é um conquistador de
territórios", afirmou o delegado Marcus Amim, da Delegacia de
Repressão a Entorpecentes (DRE).
Peixão – ou melhor,
Alvinho – foi criado pela mãe, umbandista, que recebia santo (o Erê)
vestida de branco, comia pipoca e doces de criança na esquina da Avenida
Brasil. Hoje adota e prega um discurso de “povo escolhido”. Mandou colocar
a Estrela de Davi no topo da Cidade Alta e desenhou as
bandeiras de Israel por toda parte. Seu bando passou a ser chamado
de Tropa do Aarão.
A influência
evangélica fez também com que as favelas fossem desenhadas com
passagens bíblicas. Na esteira disso, veio a intolerância religiosa.
Terreiros foram proibidos e imagens de santa retiradas (veja na imagem acima).
O traficante já
foi investigado por ordenar ataques a terreiros de religiões de matriz
africana, através da atuação do Bonde de Jesus em Duque de
Caxias, onde nasceu. Ele mesmo pregava em uma igreja evangélica no
município.
Foi num bar da
família, na beirada da favela, que ele cresceu. De pequeno, pegou o hábito
curioso que mantém: o de sempre colocar azeitona em tudo que come. Perdeu dois
irmãos para o crime – ambos acabaram mortos. A irmã também se envolveu. E outro
irmão, Aldo, que ainda está vivo, perdeu uma perna – contra ele, há
mandado de prisão.
Imagem: Twitter
Robertinho evitava
confrontos com a polícia a todo custo. Pagava propinas para não ser
incomodado e fazia benfeitorias sempre tentando angariar a simpatia de
moradores. Fez escola assim.
Peixão não tem registro oficial de prisão nos arquivos da polícia. Sua primeira anotação criminal foi em 2015, num relatório que já o tratava como novo chefão de Parada de Lucas. Hoje são 50 registros em sua folha, com 20 mandados de prisão por crimes como tráfico, homicídio, tortura, assaltos e ocultação de cadáver.
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